O secretário-geral da ONU pediu ontem às diversas partes envolvidas na questão nuclear iraniana que aproveitem uma "janela de oportunidade" de 30 dias para continuar as discussões e evitar a reimposição de sanções internacionais contra Teerão.

"O secretário-geral insta os participantes do JCPOA [sigla como é conhecido o Acordo Nuclear com o Irão de 2015] e o Conselho de Segurança a continuarem as negociações para encontrar uma solução diplomática que garanta a natureza pacífica do programa nuclear iraniano e traga benefícios económicos para o povo iraniano", disse hoje o porta-voz de António Guterres, Stéphane Dujarric.

Nos próximos 30 dias, acrescentou Dujarric, há "uma janela de oportunidade" para evitar qualquer nova escalada e encontrar um caminho que sirva à paz.

"O secretário-geral acolhe com satisfação quaisquer esforços nesse sentido", reforçou.

A França, o Reino Unido e a Alemanha ativaram hoje o mecanismo para reimpor sanções da ONU contra o Irão, por incumprimento em relação ao seu programa nuclear, revela uma carta enviada ao Conselho de Segurança.

Segundo o documento citado pela agência France-Presse (AFP), os três países, que constituem o grupo conhecido como E3, notificam o Conselho de Segurança da ONU, "com base em provas factuais", que o Irão "está em incumprimento significativo dos seus compromissos" do acordo nuclear de 2015.

O grupo E3 invocou nesse sentido a ativação do mecanismo 'snapback', que inicia "um processo de 30 dias para reimpor uma série de sanções suspensas há dez anos".

Os países europeus têm vindo a ameaçar Teerão há meses e a ativação do mecanismo surge poucas semanas antes do fim do seu prazo e numa altura em que a diplomacia está paralisada.

Face ao passo adotado pelo E3, Guterres sublinhou hoje a necessidade de esforços adicionais para evitar um novo conflito militar e apelou à priorização do diálogo, de forma a abordar as preocupações relacionadas com o programa nuclear iraniano e com a segurança regional em geral.

As negociações entre os Estados Unidos e o Irão estão estagnadas, a cooperação de Teerão com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) é limitada e as discussões entre a República Islâmica e os países europeus também não têm sido bem-sucedidas.

O E3 "fará pleno uso do período de 30 dias" para tentar encontrar uma solução negociada e evitar com sucesso a reimposição de sanções, indicaram os três países na carta ao Conselho de Segurança, assinada pelos respetivos chefes das diplomacias.

O mecanismo prevê o congelamento dos ativos iranianos no estrangeiro, a suspensão dos negócios de armas com Teerão e penaliza qualquer desenvolvimento do seu programa de mísseis balísticos, entre outras medidas, pressionando ainda mais a frágil economia do país.

De acordo com a AIEA, antes da guerra entre Telavive e Teerão em junho, o Irão enriquecia urânio até 60% de pureza --- um pequeno passo técnico para atingir os níveis de 90% para a obtenção de armas - e desenvolveu também um 'stock' de urânio altamente enriquecido suficiente para produzir múltiplas bombas atómicas, caso optasse por fazê-lo.

A República Islâmica insiste que o seu programa nuclear é pacífico e procura apenas objetivos civis, mas no final de junho, em plena guerra com Israel, os Estados Unidos bombardearam três instalações nucleares iranianas.

É ainda incerto o real dano dos ataques israelitas e norte-americanos contra o programa nuclear iraniano.

A Assembleia-Geral da ONU, que decorrerá em setembro, deverá ter o Irão como um dos seus principais temas.