
Que o mundo foi e será uma porcaria, já sei. O tango de Enrique Santos Discépolo, chamado Cambalache, resume, na visão brasileira, o que foi a noite de futebol do dia 25 de março de 2025 em Nuñez. Mas que falta de respeito, que atropelo... O Brasil sofreu um atropelo monumental, talvez decisivo para o futuro de Dorival Júnior. A Argentina fez a festa do seu público, com gritos de "olé" que começaram ainda antes dos dez minutos. Foi uma das derrotas mais vergonhosas da seleção brasileira (4-1), contra o maior rival, com uma verdadeira indiferença ao que representou um dia o futebol aqui jogado.
Nas Eliminatórias, a Canarinha cai para quarto, com apenas 21 pontos, dez a menos que a líder Argentina, já apurada antes desta partida para a fase final do Mundial 2026.
Que atropelo...
A Argentina tratou bem a bola. Dominou por completo os primeiros minutos e aproveitou uma desatenção ofensiva para ganhar vantagem. A jogada começou com uma cobrança de falta rápida, passou por De Paul, chegou em Thiago Almada pelo meio, e o craque, ex-Botafogo, encontrou Julián Álvarez na área. O camisola 9 passou entre Murillo e Guilherme Arana e bateu Bento para abrir o placard.
Não passaram nem dez minutos e os argentinos já gritavam "olé". Praticamente só o lado albiceleste via a cor da bola. O segundo golo, aos 12 minutos, veio em ritmo de tango: dramático, mas com movimentos muito bem coordenados, artísticos. Foram 33 toques na bola só de argentinos até a conclusão, 1min32s de posse ininterrupta. De Paul foi o grande arquiteto do golo, participando no início do lance e depois abrindo na direita para Molina, que cruzou na segunda trave para Enzo Fernández só empurrar para a rede.
Os argentinos colocaram os brasileiros na roda. E não era de samba. Mostraram que futebol se vence na bola, não com palavras e muito menos com pontapés. A albiceleste jogou como campeã do mundo, mesmo sem o melhor argentino que já tocou uma bola com os pés. Para os argentinos, até chutão virava passe decisivo.
Só que os Hermanos ficaram confortáveis demais em campo. Tanto que Romero vacilou na frente de Matheus Cunha. Demorou demasiado, e deu tempo do avançado recuperar, avançar e bater rasteiro. Dibu Martínez não conseguiu evitar o castigo e o jogo ganhou um pouco de imprevisibilidade.
A Canarinha igualou em intensidade e, aos poucos, começou a pensar em jogar futebol. Só que os argentinos não deram muito tempo para pensar. Depois de Almada ver Bento parar um bonito remate, o canto ensaiado terminou em cruzamento de Enzo para Mac Allister, que entrou nas costas da defesa e bateu Bento para o terceiro.
Vexame brasileiro
O lema argentino depois do intervalo foi controlar o jogo através da posse de bola. A equipa de Scaloni deu dois passos atrás, e o Brasil, modificado, de Léo Ortiz na defesa até Endrick na frente, passando por João Gomes no meio, era inofensivo.
A albiceleste, aos 26 minutos, aproveitou (mais um) momento de passividade da defesa brasileira para transformar a vitória em goleada. Tagliafico recebeu cobrança de falta rápida na canhota e mandou no outro lado da área para Giuliano Simeone entrar como tantas vezes faz na temporada pelo Atlético de Madrid. Arana e Marquinhos ficaram a olhar para novo golo argentino.
Completamente irrelevante falar da cobrança de falta de Raphinha que acertou o travessão na sequência do golo. Nada apagaria o passeio que foi o argentino no Monumental. Paredes quase fez um golaço na 11ª finalização da equipa, a sétima na baliza - Bento foi ao ângulo salvar. De Paul, de seguida, mandou de fora da área e muito perto do alvo. Foi 4-1, mas poderia ter sido mais. Foi uma noite para o futebol brasileiro esquecer. Ou, na verdade, lembrar, para nunca mais repeti-la.