
26 de janeiro de 2020. Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria. UD Leiria-Fontinhas, 19.ª jornada da Série C do Campeonato de Portugal da época 2019/2020. Até aqui, caro leitor, tudo normal. O que, na altura, não era assim tão normal (paradigma que, entretanto e felizmente, se alterou por completo) era termos uma mulher a arbitrar jogos de homens.
Mas nesse dia tivemos. Felizmente, reforçamos. E logo com uma estreia pessoal: Catarina Campos apitava pela primeira vez um jogo de um campeonato nacional masculino.
29 de março de 2025. Estádio Municipal de Rio Maior. Casa Pia-Rio Ave, 27.ª jornada da Liga. Agora, caro leitor, estamos perante uma página com carimbo dourado na história do futebol português. Porque às 15h30 será dado um apito inicial muito especial: Catarina entra outra vez em Campo(s), desta feita para passar a ser a primeira mulher a arbitrar no principal escalão. Felizmente, voltamos a dizer. Porque a competência não tem idade nem género. Podemos (assim o esperamos) estar na presença do início de uma regra, ficando (definitivamente) para trás a exceção. Haja esperança…
Mas A BOLA quis mais. Quis recordar como tudo começou. Para isso, recuámos cinco anos. E fomos, caro leitor, ao primeiro dia do resto da vida de Catarina Campos.
Regressámos a Leiria e estivemos à conversa com um dirigente que esteve presente nesse tal jogo icónico para a jovem árbitra, atualmente com 39 anos de idade: Carlos Delgado, à época, delegado do UD Leiria. E as memórias não podiam ser melhores.
«Lembro-me perfeitamente desse dia. Foi excecional. Começou aí um trajeto que hoje é cada vez mais brilhante e a verdade é que se trata da mais elementar justiça perante as competências da Catarina. Nessa manhã, ficou claro que estávamos perante alguém que tinha todas as condições para fazer história no mundo da arbitragem. Desde a reunião pré-jogo, à exibição praticamente irrepreensível que realizou, à forma como lidou com os jogadores dentro do campo e com os restantes agentes desportivos fora dele, a Catarina teve um dia imaculado. Correu tudo lindamente e percebeu-se logo a sua qualidade», começou por dizer o atual diretor desportivo do emblema leiriense.
Carlos Delgado reforça o seu apreço por Catarina Campos e o único espanto é que a juíza só agora tenha chegado à Liga: «Já merecia esta oportunidade há mais tempo. Não tenho dúvidas de que fará mais uma grande arbitragem e de que será o início de uma nova era.»
Caminhada da árbitra já passou pela Liga 2 e o pós-apito final não deixou saudades…
Árbitra internacional desde 2018, Catarina Campos recebeu recentemente as insígnias da FIFA – ainda anteontem apitou o Chelsea-Man City, da segunda mão dos quartos de final da Liga dos Campeões feminina. Natural de Viseu, a licenciada em Comunicação Social reside atualmente na capital, sendo assistente operacional educativa com vínculo à Câmara Municipal de Lisboa.
E se hoje o palco é da mais alta dimensão em Portugal, há cerca de um mês e meio Catarina Campos já tinha saltado para a (outra) ribalta: a 15 de fevereiro dirigiu o Paços de Ferreira-Feirense (1-2), da 22.ª jornada da Liga 2. Foi (também) a primeira vez que uma mulher arbitrou um jogo dos campeonatos profissionais portugueses.
A partida até correu muito bem à viseense, mas a verdade é que após o apito final, e com os ânimos à flor da pele de vários jogadores, houve confusão a rodos ainda em pleno relvado do Estádio Capital do Móvel.
Algo que, naturalmente, não se deseja esta tarde no duelo entre o Casa Pia e o Rio Ave. Para que o momento histórico não seja minimamente beliscado.