
Imaginem um cenário onde Portugal se torna palco de um dos mais prestigiados eventos do atletismo mundial, a “Diamond League”. Esta hipótese ainda é um sonho distante para os entusiastas do desporto, mas seria claramente uma possibilidade que poderia potencializar o cenário desportivo nacional, trazer um novo dinamismo económico à modalidade e tentar afirmar a posição de Portugal no mapa mundial do atletismo.
Por força do mérito, estamos habituados a assistir aos resultados desportivos de Patrícia Mamona, Nelson Évora, Pedro Pichardo, Auriol Dongmo, e mais recentemente, Isaac Nader, Salomé Afonso e Patrícia Silva nos campeonatos europeus ou mundiais. Contudo, e como a cultura desportiva do país é escassa, só os amantes da modalidade compreendem a existência de eventos para além da representação nacional ou clubística. O atletismo tem oferecido uma maior variedade competitiva à luz das mudanças estruturais na sociedade e com ela uma habilidosa gestão em saber responder às suas necessidades. Tecnologia, investimento e gestão empresarial são os termos em voga para sobrevivência da própria modalidade face às gigantes concorrentes históricas.
Em 2025 iremos assistir ao maior investimento feito em termos de oferta e recompensa financeira aos atletas profissionais na última década. Avizinham-se potenciais eventos concorrentes à “Diamond League” e consequentemente um maior dinamismo na modalidade. Mas no final de contas, o que é a “Diamond League”?
A “Diamond League” é uma série anual de competições de atletismo de elite, reconhecida mundialmente, que reúne os melhores atletas do mundo em eventos que acontecem em várias cidades do mundo. É uma liga onde os melhores em cada especialidade atuam tendo em consideração o incentivo financeiro significativo em comparação com a mediocridade dos outros eventos de pista. A “Diamond League” é uma reformulação da antecessora “Golden League” tendo sido criada em 2010 com a sua gestão sob a alçada do maior organismo mundial de atletismo, a “World Athletics”.
Simplificando a sua vertente desportiva, a Diamond League ocorre todos os anos de abril a setembro, é realizada em 15 locais estratégicos em todo o mundo e alberga 16 especialidades que vão desde a velocidade, saltos, meio fundo e lançamentos. Os atletas convidados a participar em cada etapa pontuam do 1.º ao 8.º lugar em que face aos resultados obtidos darão acesso ou não a uma final em que o prémio é consideravelmente superior e coroado como o/a “campeão/a da Diamond League”. Em 2025, prevê-se um investimento recorde de 9,2 milhões de dólares em prémios a distribuir por todas as etapas da liga, sendo que só na final serão atribuídos 2,2 milhões de dólares.
A “Diamond League” tem sido um produto extremamente atraente para patrocínios e investidores que tentam conciliar as marcas com a excelência e espetáculo desportivo.
A própria atribuição das etapas a determinados países não ocorre apenas pelo querer. Existe um complexo processo com várias exigências a que cada evento ou organizador de eventos tem que inevitavelmente responder se pretender receber uma das etapas da liga. Entre os requisitos que vão a apreciação pela assembleia-geral da “Diamond League”, podem-se destacar as exigências pela capacidade de espetadores do estádio, a componente técnica de realização dos eventos, todos os serviços de media associados, hotéis de requisito mínimo 4 estrelas para atletas, etc.
Todas estas medidas se traduzem num orçamento significativo. Os melhores eventos ou “meetings” de atletismo mundiais, alguns com dezenas de anos de história, estão praticamente todos com o “branding” da liga diamante. A marca forte da Diamond League chegou a acordo para o seu “naming” com a multinacional chinesa Wanda Group, adquirindo assim a designação de “Wanda Diamond League”. Segundo algumas notícias, à altura do momento de apresentação, o valor deste acordo previa chegar aos 100 milhões de dólares com uma duração de 10 anos e o seu inicio em 2020.
Contudo, pode se ler num recente post da conta oficial da liga diamante na plataforma “X” de que “New total over a third higher than recent seasons, with an estimated 270 million USD invested in athletes since 2010”, confirmando uma subida muito significativa desse mesmo valor. É sabido também que este acordo teve algumas contrapartidas, pois entende-se que a liga tem uma representação mundial e, talvez por isso, agora na China são realizadas duas etapas. Adicionalmente, a partir de 2025 uma das principais fontes de receita, que são os “media rights”, também passarão a ser geridos pela Infront Sports & Media, que foi adquirida pela própria Wanda.
Qualquer organização investe e ajusta-se consoante a dinâmica do mercado. E a Wanda Diamond League não é exceção. Esta subida de prémios e incentivos à participação dos atletas em 2025 não acontece por si só. Consegue-se entender que é uma resposta face a dois eventos concorrentes nos próximos anos. À semelhança desta liga de estrelas, vão estrear os eventos “Ultimate Championship” e o “Grand Slam Track”.
Para efeitos de comparação, o primeiro tem como notável referência o investimento de cerca de 10 milhões de dólares em prémios com 150.000 mil dólares alocados a cada um dos vencedores das 16 disciplinas. Como a sua gestão é feita pela World Athletics, tiveram a consciencialização de ser um evento que preencha a lacuna de uma competição considerada “grande” em anos intercalados com Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos. Só os 16 melhores atletas de cada especialidade serão chamados a competir e o evento total terá uma duração de três horas. Para efeitos comerciais, este é também um dos problemas que as grandes organizações têm vindo a solucionar.
O número de horas de um evento de atletismo era historicamente elevado, tornando-se óbvio que havia cada vez menos tração do público e, consequentemente, vontade financeira dos potenciais compradores de direitos televisivos para um evento que estivesse a perder audiências. Ao dia de hoje, todos os grandes momentos competitivos de pista são contabilizados ao segundo, encurtando todo o evento em si tendo em consideração as transmissões televisivas e/ou streaming.
A considerada “the next big thing”, envolta em alguma polémica e surpresa, é claramente o “Grand Slam Track”. A figura emblemática do desporto mundial, Michael Johnson, é o principal fundador e também investidor que conseguiu garantir um financiamento de 30 milhões de dólares para todo o circuito, tendo como parceiro principal a Winners Alliance. Este é, provavelmente, o evento com maior impacto mediático fora do espectro normal de competições e, com toda a certeza, o evento com maior prémio combinado para uma temporada de corridas de pista de todos os tempos. Adiciona um formato inovador e direcionado para o espetador.
A liga é composta por quatro etapas e apenas se foca na “track”. Há alguns dias surgiu uma polémica relativamente a Michael Johnson, afirmando que ele conseguiria salvar a “track” e não o todo, “track and field” (tradução de atletismo para inglês - “track and field”). Compreenda-se que “track” assume todo o tipo de corridas de pista, enquanto o “field” engloba saltos e lançamentos que não estarão presentes nesta liga. Como seria de esperar, muitos dos atletas desta última categoria não viram com bons olhos as afirmações de Michael e não perderam tempo em criticá-lo.
Contudo, este novo projeto é assumidamente diferente. Adicionalmente ao já exposto, o Grand Slam Track divide os atletas que irão competir em “Racers” e “Challengers”. “Racers” corresponde a um conjunto de atletas de elite que, assinando um contrato, são obrigados a competir em todas as etapas dos eventos em troca de um valor monetário de presença. Valor ao qual acresce o prémio atribuído pela posição conseguida na sua corrida. Os “Challengers” são atletas convidados que não têm o mesmo compromisso contratual. Enquanto uns são fixos, os outros são variáveis. Um dos aspetos mais interessantes a reter é que as escolhas dos atletas a competir não se baseia apenas na sua performance ou ranking mundial. Fatores extra a considerar são as rivalidades que possam existir, o mediatismo em torno de alguém ou até mesmo a “global following and fandom” de cada potencial concorrente. Estes são claramente novos tempos na modalidade.
Agora, a pergunta que se faz é: será que Portugal poderia receber um evento destes?
A resposta mais adequada a esta pergunta seria: “Sim, mas…” Sim, mas tem de existir investimento. Sim, mas tem de existir uma certa influência nas entidades organizadoras por parte dos nossos representantes. Sim, mas há coisas que primeiro têm de acontecer na nossa modalidade em solo nacional. Concluindo, sim, Portugal poderia receber um evento desta natureza, mas tem de existir essa vontade.
Há dias, em conversa sobre este assunto com um dos mais conceituados treinadores de Atletismo em Portugal, consegui reter uma frase interessante: “Receber a Diamond League no atletismo nacional está como o país receber os Jogos Olímpicos.” Entendo a analogia, mas o desafio costuma ser mote do alto rendimento. E o atletismo é exímio nisso. Afirmo com certeza que temos infraestruturas em Portugal capazes de receber um evento desta dimensão: pistas de atletismo com as condições pretendidas situadas em estádios com lotação de 12000 espetadores existem em várias cidades do nosso País. Inclusive, partilho a minha opinião da possibilidade de realização no Estádio Nacional do Jamor, não só pela sua proximidade à capital, mas essencialmente pelo seu fator histórico.
Todas as outras variáveis como logística, promoção, componente técnica, etc., são claramente asseguradas se existir financiamento para isso. Contudo, tudo isto não basta. Nem mesmo que, espontaneamente, um considerável parceiro decida investir uma quantia significativa para assegurar uma etapa da Diamond League em Portugal. Aliás, o financiamento de um evento destes não depende apenas de um só agente, terá de existir claramente uma parceria entre o setor público e o privado. Para consciencialização, em 2023, o “UK Sport” (Organização governamental do Desporto do Reino Unido) investiu 188 mil dólares para assegurar a presença de uma das etapas no Estádio Olímpico de Londres. E porque investiram esta verba num evento destes? Porque têm consciência do seu impacto socioeconómico no país e, especialmente, na modalidade.
O investimento seria uma parte significativa do processo, contudo todo o pormenor é tido em consideração. Os responsáveis pela avaliação dessa mesma proposta iriam ter em conta se o atletismo português é relevante no País, se é estrategicamente viável, se temos estádios capazes, mas não os enchemos com público, se existem dezenas de atletas portugueses no topo mundial e não apenas dois ou três, etc. Mas, retirando da equação os obstáculos e voltando de novo ao otimismo, se existisse mesmo a vontade de lotar o estádio nacional do Jamor com público, não se conseguiria?
Nós, Portugal, que temos o dom de bem receber os maiores eventos mundiais e gabamo-nos dos elogios que recolhemos? Vamos receber o Campeonato do Mundo de futebol em 2030, que trará uma receita fiscal de 400 milhões de euros. Segundo um relatório de consultoria da PwC relativamente a este Mundial, “os benefícios a longo prazo são múltiplos e diversos, contribuindo para o desenvolvimento integral do país e deixando um legado duradouro que vai além do impacto socioeconómico imediato”.
Jamais estarei a comparar a dimensão do futebol com o atletismo, mas acho que esta afirmação é transversal a qualquer modalidade desportiva. E mesmo que não sejam €400 milhões, o impacto da Diamond League, sendo extremamente inferior, acredito ainda assim ser positivo. Seria interessante, mas não vejo num horizonte temporal próximo algum organismo do atletismo português gastar recursos num relatório de consultoria para sustentar a tomada de decisão sobre este tipo de assuntos. Mas quem sabe?
Se calhar um dia ainda teremos a Diamond League em Portugal.