
“Vai criar constrangimentos à indústria automóvel europeia e também a uma parte das exportações nacionais sobretudo na área dos componentes, isso é garantido. Agora resta esperar para ver a extensão total dos danos”.
É desta forma que Helder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) reage à formalização do anúncio de Donald Trump em aplicar uma taxa aduaneira de 25% sobre todos os automóveis produzidos no estrangeiros que entrem nos Estados Unidos.
O Presidente norte-americano anunciou esta quarta-feira, nos jardins da Casa Branca, que a partir das 0h00 do dia 3 de abril entrará em vigor um regime de “tarifas recíprocas” sobre importações, sendo de 20% sobre todos os produtos com origem na União Europeia e de 25% para os automóveis em geral.
Consumidores americanos serão os primeiros a “sofrer”
O secretário-geral da ACAP nota que, numa primeira fase quem irá sofrer mais serão os consumidores americanos, pois “vão ter de pagar mais pelos automóveis que quiserem comprar, se forem importados” e que, em consequência isso irá gerar mais inflação.
Perante uma eventual e “previsível” retração na procura, devido ao aumento dos preços, “é muito natural que algumas construtoras europeias tenham de rever os seus plano de produção”, sublinha Helder Pedro, e acrescenta que, apesar desse efeito, “não se prevê que isso seja o suficiente para provocar encerramentos de fábricas”.
No caso concreto das exportações nacionais de automóveis, Helder Pedro diz que os aumentos agora anunciados por Trump nas taxas alfandegárias “terão um impacto praticamente nulo, pois a esmagadora maioria (quase totalidade) das exportação de automóveis produzidos em Portugal seguem para países europeus”.
O sector dos componentes é o mais exposto
O que pode sair mais prejudicado é o sector da indústria dos componentes para automóveis que, segundo Helder Pedro, encaminha 4,9% das suas vendas ao exterior para os EUA. Mas também pode ser afetado de forma indireta pois muitas das suas exportações fornecem modelos fabricados noutros países que, por sua vez, depois os exportam para os EUA.
Em suma, enfatiza o responsável da ACAP, “há muita apreensão, muitas cautelas e existe também o receio de que se assista a uma escalada tarifária entre blocos económicos, o que seria mau para todos”.
Trump não apoia transição para a mobilidade elétrica
Helder Pedro lamenta ainda que a própria indústria automóvel norte-americana possa sair enfraquecida, pois “é sabido que Donald Trump não quer apoiar a transição para a mobilidade elétrica e continua a ignorar as metas ambientais que têm vindo a ser impostas ao sector”.
Isso significa, segundo este responsável, que “as construtoras norte-americanas continuarão a perder competitividade neste domínio, sobretudo para China, e também irão ser penalizadas por passarem a ter de pagar ainda mais pelas componentes que importam de outros países”, sendo que, em média, a incorporação nacional na produção de carros nos EUA é de apenas 40%, e tudo o resto comprado ao exterior.