Missão cumprida. O Benfica queria chegar ao Dragão empatado com o Sporting no cume do campeonato e aí está. 27 rondas disputadas por cada rival lisboeta, 65 pontos para águias, 65 para leões.

Missão cumprida com recurso à arma das últimas semanas. Eis o Benfica das mutações, da profundidade do plantel, do grupo de jogadores que permite mexidas constantes e, mesmo assim, manter um nível alto. Em Barcelos atuaram de início Bruma, Belotti e Amdouni. Agora os titulares foram Pavlidis, Di María e Aktürkoğlu. Baralha-se, dá-se de novo, a qualidade não desce. O grego teve um golo e uma assistência, o turco dois golos e uma assistência.

Missão cumprida sem problemas contra o penúltimo. Ups, não, melhor refazer esta parte. Com 2-0 a abrir, perante a visita de quem não vence desde 21 de dezembro de 2024, tudo parecia levar a um suave serão na Luz. Nada disso. Sem muita tensão defensiva, o Benfica pareceu convidar o aflito Farense a acreditar, como quem dá uma oportunidade a um homem que se encaminha para a guilhotina. O resultado prático não se alterou. Se calhar são destas vitórias, obtidas em noites de desconexão, que se fazem os campeões. Ou se calhar são estas desconexões que devem preocupar. Talvez o Dragão ajude a perceber melhor.

O Farense chegava à Luz com toda a urgência de uma equipa que não vencia há 12 jogos e que, nas 10 rondas antes da visita à capital, apenas somou quatro pontos. Tozé Marreco não falou antes do encontro, num silêncio que se enquadra nos sintomas clássicos da patologia conhecida como crise desportiva.

O 1-0 de Aktürkoğlu
O 1-0 de Aktürkoğlu JOSE SENA GOULÃO

O sentido de urgência levou os algarvios a entrarem na partida como um homem nervoso antes de um primeiro encontro. Apressados, perdendo os timings para intervir, ansiosos, a cabeça a ordenar uma coisa e o corpo a fazer outra. Logo nos segundos iniciais, Artur Jorge e Falcão escorregaram quando se queriam fazer à bola. Era como uma equipa a querer jogar em velocidade 2.0 quando só conseguia atuar em 0.5. Resultado: despiste.

Nessa ânsia de que o date corresse bem, o aflito Farense, na pressa por ir atrás dos pontos, desprotegeu a sua defesa. Aos 23’, os visitantes perdiam por 2-0 e ambos os golos surgiram em contra-ataques das águias.

Primeiro foi Kökçü a lançar a ofensiva. Os leões de Faro acabavam de se esticar em campo, mas a audácia foi paga pela qualidade do Benfica. Com espaço, tudo se simplificou. Kökçü para Pavlidis, Vangelis para Di María, Angel para Aursnes, Fredrik para Aktürkoğlu, Kerem para um feitiço fácil, vindo do primeiro ano de Hogwarts, um remate para a baliza deserta.

O Farense não aprendeu e voltou a agir como o jovem que não sabe como agir no primeiro encontro. Atrapalhado, falando quando era para ficar calado e deixando silêncios constrangedores quando era para falar. Após um canto a favor, os homens de Marreco não conseguiram evitar novo contra-ataque. Trubin lançou Aktürkoğlu, que deu para Pavlidis. Fosse o lance há uns meses e o grego teria agido como o Farense, nervoso, ansioso, desesperado pelo golo. Agora, embalado por 13 festejos desde que 2025 chegou, teve a calma e a precisão para rodar, jogar com o tempo e o espaço e dobrar a vantagem local.

Com uma cómoda vantagem, confiante por receber o penúltimo e a escassos dias de visitar o Dragão, o Benfica pareceu apostado em deixar o relógio correr. Essa calma, essa circulação lenta, até o ambiente calado da Luz, tudo pareceu levar o Farense para um futebol menos precipitado, menos sôfrego. Miguel Menino, em duas ocasiões, obrigou Trubin a boas defesas. E, aos 43’, os minutos de perigo dos algarvios levaram a um justificado 2-1, num canto em que, após cabeceamento de Falcão à barra, Tomás Ribeiro empurrou para reduzir.

Tomás Ribeiro festeja o 2-1
Tomás Ribeiro festeja o 2-1 Carlos Rodrigues

O recomeço teve Lage a tirar Renato para colocar Leandro Barreiro. O português não era titular num jogo de campeonato desde setembro de 2023, mas acentuou o seu hábito intermitente: não realiza um encontro completo desde maio de 2023.

Houve uns toques de primeira parte no arranque da segunda. Sem forçar muito, o Benfica aproveitou os espaços do Farense para marcar. Aktürkoğlu trabalhou o início da jogada com arte, num lance em que o panorama ficou tão claro para as águias que a ação parecia uma profecia à espera de se cumprir. Aursnes para Pavlidis, assistência para Aktürkoğlu, 3-1. A profundidade do plantel a dar resultado.

Só que a noite era mesmo de desconexão. O Benfica era o anti-Tomané, era o oposto do atacante do Farense, um velho viajante da bola que, depois de passar pela Sérvia, Turquia ou Chipre está de volta à I Liga, sempre pronto para ganhar duelos, para olhar para o choque antes que para a baliza adversária.

O Farense voltaria a reduzir. Quando Rony Lopes marcou, ainda adolescente, pela equipa principal do Manchester City, ninguém esperaria que o canhoto chegasse à Luz, antes de cumprir 30 anos, a atuar pelo 17.º da I Liga. Mas aqui estamos. Aqui está Rony, internacional português, talvez a maior promessa do futebol nacional nascida no fantástico ano de 1995, um canhoto de casa às costas — o Farense é o oitavo emblema que representa desde 2019. Seria Rony, um dos primeiros produtos do Seixal, casa que abandonou enquanto candidato a craque, aos 15 anos, para ir para o City, a apontar o 3-2 aos 63'.

Seguiram-se minutos de dúvida na Luz. Bruno Lage, para tentar contrariar a tentativa adversária de chegar ao 3-3, defendeu-se com três centrais, juntando Carreras a António Silva e Otamendi e deixando a direita para Aursnes e a esquerda para Dahl. O 3-3 pairou como um convidado inesperado na Luz quando, aos 77', Tomané cabeceou para defesa de Trubin.

Os últimos instantes não trouxeram nenhuma oportunidade para a igualdade. O Farense aproximou-se da guilhotina, o Benfica cumpre o guião esperado. Três pontos, oitava jornada seguida a ganhar, Di María sem o quinto amarelo que o impediria de estar no Dragão, Florentino e Tomás Araújo nem na ficha de jogo. Teoricamente, foi tudo perfeito. O susto foi inesperado, mas o Benfica das mutações cumpre a missão de alcançar o Sporting antes de dias de máxima tensão no futebol nacional.