«O futebol e a homossexualidade não têm uma grande relação. Por norma, pessoas que não sejam heterossexuais não se revêm no ambiente do futebol e tendem a afastar-se um pouco. Uma pessoa que, durante a sua adolescência ou infância, não se reviu no papel de um rapaz hétero, se calhar nunca teve a oportunidade de jogar à bola durante esse período. Aqui, as pessoas têm a oportunidade de competir pela primeira vez, de entrar num balneário, fazer parte de uma equipa. Por essas razões, mais que colegas de equipa, formam-se amigos. Isso muda a vida de muita gente», Nuno Rosado.

O futebol é para todos. Pelo menos, é por esta ótica que o Lisbon Foxes se rege.

Em Lisboa, encontrámos um clube inclusivo, que quer albergar todos: «O principal objetivo é incluir através do desporto. Não só em termos de orientação sexual, como em relação à nacionalidade, idioma, religião ou capacidade desportiva».

qQueremos criar um espaço seguro e mostrar à sociedade que também podemos jogar e competir
Nuno Rosado

As declarações são de Nuno Rosado e Guilherme Simões, jogadores e coordenadores da equipa de futebol. Quando confrontados com o interesse do zerozero, demonstraram todo o gosto em explicar os detalhes do projeto ao nosso órgão: «Pertencemos a uma associação desportiva de carácter inclusive. Começou com rugby e alargou o naipe de desportos.»

«Entrei há cerca de quatro anos e descobri por amigos, pelo passa a palavra», contou Nuno. «Comecei antes do COVID e descobri o clube no Arraial Lisboa Pride; reparei que havia lá uma associação desportiva e, na altura, não tinha futebol, então fui só acompanhando e, quando criaram, juntei-me», descreveu Guilherme.

Com vários anos de Lisbon Foxes no currículo, Nuno e Guilherme passaram de meros jogadores a responsáveis pela equipa. Nesse sentido, anunciaram que têm as portas abertas para todos os que quiserem experimentar... e vir por bem!

«Sempre que recebemos o contacto de alguém que está interessado, convidamo-lo a treinar connosco. Costumamos fazer open days - treinos de captação onde todos ficam na equipa, se quiserem - em setembro, mas recebemos pessoas ao longo da época inteira», começaram por informar, antes de anunciarem a única condicionante.

A equipa em ação @Redes sociais / Lisbon Foxes

«Só têm de aparecer e de se rever nos nossos valores. Não precisam de fazer parte de minorias, de ser homossexual ou ser português. Só têm de ser boas pessoas: de saber respeitar os outros e de tratar todos como gostam de ser tratados», revelaram.

Como nos referiu a dupla, o feedback de quem ingressa na equipa é positivo e não é só no seio do grupo que o bom ambiente se nota: «Também temos boas opiniões das equipas com que competimos. Chegamos a ter momentos em que, depois dos jogos, reconhecem a nossa forma de estar.»

Para já, a competição do Lisbon Foxes é pontual, marcada por alguns torneios aqui e acolá. Assim sendo, levanta-se outra questão: de que modo é possível continuar com a ímpar abordagem de acolher todos e crescer a nível competitivo?

qQuando é para competir, vamos lá para competir e dar o nosso melhor
Guilherme Simões

«É um tema entre nós: haver um equilíbrio entre o querer competir, ser melhor que o nosso adversário, e o acolher toda a gente, mesmo as pessoas que tenham um nível mais modesto. É um equilíbrio que procuramos gerir e temos conseguido. Muitos estão na equipa e não querem entrar na competição: está tudo bem com isso. Depois, há as pessoas que querem competir, ganhar e ficam chateados quando perdem», explicaram.

Nem a mais pura das intenções se livra dos males

Com estas características, este é um projeto único em Portugal. Na teoria, é exemplar. Contudo, na prática, nem tudo é um mar de rosas.

Nuno e Guilherme já vivenciaram episódios de homofobia enquanto praticavam a modalidade que mais amam. Atitudes que não devem ter espaço em lugar nenhum, que foram expostas pelos próprios.

«Sofremos diferentes tipos de homofobia. Por exemplo, dos adeptos adversários - normalmente, quem está a jogar não ouve muito o que vem da bancada, mas já nos apercebemos; ainda assim, não acontece com tanta regularidade.

O que notamos mais é quando jogamos contra alguma equipa que tenha uma homofobia latente. Sentem-se muito mais à vontade para duelos agressivos, disputas desnecessárias, para mostrar uma "obrigatoriedade" de ganhar e de provar que são melhores que pessoas homossexuais, o que os leva a usar todos os meios possíveis... Se os árbitros não conseguirem agarrar no jogo, pode descarrilar», notaram.

qQuem está na nossa equipa há uns anos diz que entrar foi das melhores decisões que tomou na vida
Guilherme Simões

No geral, o duo nota uma evolução «residual» no mundo do futebol, mas ainda há muito por percorrer: «Sobretudo, ao olharmos para o futebol masculino, porque o feminino sinto diferenças; não há masculinidade tóxica. Felizmente, as pessoas começam a assumir-se e isso é bom, para normalizar a questão. Mesmo assim, a homofobia no futebol ainda é muita e, se calhar, até tem vindo a aumentar nos últimos tempos, com a ascensão da extrema-direita na Europa e nos EUA, que faz com que as pessoas se sintam mais à vontade para serem publicamente homofóbicas. E nós sofremos isso na pele...»

Deixando o cenário infeliz e negativo de lado, voltamos, para terminar a peça, às coisas boas. Em tom de conclusão, demos abertura ao Nuno e ao Guilherme para apresentarem motivos que convençam os nossos leitores a experimentar a equipa lisboeta.

«Somos um grupo saudável e civilizado - algo que, por vezes, não acontece noutros, o que é triste, mas é verdade. Temos um ambiente espetacular nos treinos. Somos bem recebidos pelas instituições organizadoras de torneios, que querem a nossa presença por sermos uma equipa em que podem confiar», apontaram.

«Grande parte dos atletas notam que os momentos onde melhor podem respirar numa semana de trabalho são nos treinos, onde passam uma hora e meia ou duas com os restantes colegas - que depois se tornam amigos».

O futebol como elo de ligação entre todos e nunca o contrário.

@Redes sociais / Lisbon Foxes