No início do ano, Paris virou o Texas. Os San Antonio Spurs levaram Victor Wembanyama à capital francesa satisfazendo o público local, mas também aquela franja de adeptos que não tem uma equipa da NBA ao virar da esquina. Desde 2020, a liga norte-americana deslocou cinco jogos da fase regular para a Cidade das Luzes. Os bilhetes para os dois encontros deste ano, que também envolveram os Indiana Pacers, esgotaram em 24 horas, sendo que os ingressos foram parar a indivíduos de 53 países.

As redes sociais da NBA angariaram 718 milhões de visualizações em conteúdos relacionados com a parelha de partidas entre as equipas de conferências opostas. Na parafernália de números, a televisão francesa também alcançou os seus: nenhum jogo na história da competição foi tão visto como estes.

A NBA é uma marca conhecedora de todas as esquinas do planeta. Por algum motivo, os vencedores se autoproclamam campeões do mundo. Os tentáculos da organização agigantam-na imperialmente. O próximo território a conquistar é a Europa. Adam Silver chamou-lhe “a próxima etapa”. O comissário da NBA assumiu estar a “explorar uma potencial liga na Europa com a FIBA como parceira”. Das muitas vezes que se pronunciou sobre o assunto, esta foi a mais veemente, talvez por finalmente ter encontrado o parceiro certo.

Ao lado de Adam Silver sentou-se Andreas Zagklis, secretário-geral da FIBA. Apesar da conferência de imprensa sobre o tópico, ainda nada foi oficializado. Há muito potencial, imensa exploração e uma vastidão de incertezas. O único aspeto que já parece definido é o organismo com quem a NBA vai trabalhar no seu antigo desejo de expansão.

“O pensamento inicial é que teremos uma liga potencialmente com 16 equipas. Isto ainda é muito preliminar. Talvez 12 clubes sejam permanentes e quatro clubes tenham aceso anualmente. Mas isto ainda está sujeito a alterações, é algo que estamos a avaliar.” Em traços gerais, foi assim que Adam Silver apresentou a competição. A ideia de um “sistema aberto” serve para “honrar as tradições do basquetebol europeu”. Do mesmo modo, os jogos devem ter a duração de 40 minutos (em vez de 48, como na NBA).

Ao contrário de outras modalidades com difusão na Europa, no caso do basquetebol, o centro de poder está nos Estados Unidos, onde se situa a liga mais mediática e financeiramente rentável. Porém, a NBA tem um modelo sui generis. As equipas têm tetos salariais e as transferências de jogadores fazem-se com recurso a trocas. Além disso, os clubes, na realidade, são franquias.

Não se sabe quais serão os membros da competição que a NBA vai lançar na Europa. Desconhece-se se dela farão parte clubes já existentes e com tradição no basquetebol, se a prova levará a clubes que não integram a modalidade criem uma equipa ou se existirão novas franquias.

Florentino Pérez e Luka Dončić num jogo de pré-época. O esloveno representou o Real Madrid no início da carreira e agora é uma das maiores estrelas da NBA
Florentino Pérez e Luka Dončić num jogo de pré-época. O esloveno representou o Real Madrid no início da carreira e agora é uma das maiores estrelas da NBA Europa Press Sports

“Queremos testar o nível de interesse dos clubes já existentes. Em alguns casos, vêm com esses clubes grandes marcas globais construídas através do futebol e não do basquetebol”, refletiu Adam Silver. O dirigente refere-se a Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Olympiacos, Fenerbahçe, Mónaco, Panathinaikos, Partizan ou Estrela Vermelha. No entanto, gera-se uma situação de incompatibilidade, pois alguns destes emblemas são proprietários de outra competição.

É na EuroLiga que jogam as principais equipas europeias às quais a NBA pode querer piscar o olho. Trata-se de uma liga privada, onde os 13 proprietários – Anadolu Efes, Fenerbahçe, Real Madrid, Barcelona, Baskonia, Olympiacos, Panathinaikos, Zalgiris Kaunas, Maccabi Tel Aviv, Olimpia Milano, Bayern Munique, ASVEL e CSKA Moscovo (suspenso) – têm presença assegurada independentemente do resultado desportivo do ano anterior. Os restantes membros têm licenças de participação temporárias e podem variar, sendo que o vencedor da EuroCup tem um lugar assegurado na EuroLiga da temporada seguinte.

A EuroLiga e a EuroCup são competições privadas na medida em que o acesso não é conseguido via campeonato. Ambas estão fora da égide da FIBA. Na Europa, as provas internacionais geridas pelo organismo que tutela o basquetebol são a Liga dos Campeões da FIBA e a FIBA Europe Cup (Portugal tem tido representação nas duas). Em breve, a já por si inusitada estrutura pode sofrer uma revolução.

De acordo com o “The Athletic”, os planos iniciais de Adam Silver passavam por desenvolver a competição europeia com chancela da NBA em conjunto com a EuroLiga. As conversas não terminaram com um aperto de mão para a fotografia. Aí, surgiu a FIBA como parceiro para o projeto.

Na conferência de imprensa com o comissário da NBA, Andreas Zagklis fez da EuroLiga o elefante na sala. Por muito que tenha sido questionado sobre a necessidade de se sentar à mesa com os clubes que a ela pertencem, evitou mencionar o organismo com quem a FIBA tem históricas tensões.

Em 2000, um grupo de equipas resolveu abandonar a FIBA EuroLiga. O conjunto de dissidentes formou uma nova competição e apropriou-se de um nome que não estava patenteado. Nesse momento, o basquetebol europeu passou a ter duas competições de primeiro nível, ou seja, as equipas fiéis à FIBA enfrentavam-se naquilo que hoje é a Liga dos Campeões e as outras, mais poderosas e influentes, integraram a EuroLiga.

“Todos os clubes na Europa são clubes da FIBA, pois jogam nos campeonatos e nas taças nacionais. Alguns deles jogam e são proprietários dessa competição [EuroLiga]. Queremos que os clubes de maior nível façam mais dinheiro para que sejam sustentáveis, uma vez que a maioria deles não são”, aprofundou Andreas Zagklis com o respaldo de um novo parceiro de peso.

Kendrick Nunn prepara-se para ser o jogador mais bem pago da Europa
Kendrick Nunn prepara-se para ser o jogador mais bem pago da Europa Panagiotis Moschandreou

Devido ao estatuto dos símbolos que nela competem, a EuroLiga tem-se apresentado como a segunda melhor liga do mundo. Tal estatuto não significa que esteja perto de competir com a NBA pelo trono da modalidade. Kendrick Nunn prepara-se para assinar um contrato de três anos que vai rechear os bolsos da estrela do Panathinaikos, vigente campeão da EuroLiga, com €4,5 milhões por ano. Será o mais bem pago jogador a atuar no continente. Em comparação, o jogador da NBA com maior vencimento esta época é Steph Curry, que chegará ao final de 2024/25 com mais €50,6 milhões na conta.

As receitas da EuroLiga têm crescido nos últimos anos. Graças a uma parceria com a IMG, empresa de produção e distribuição de conteúdos desportivos sediada nos Estados Unidos, a organização tem conseguido assinar contratos lucrativos. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, pagaram um valor que pode chegar, segundo o “El País”, aos €25 milhões para receberem a Final Four deste ano – valor abaixo da proposta inicial de €50 milhões, que incluía três edições da fase que decide o vencedor. Do país do Médio Oriente vem o Dubai Basketball, equipa que vai competir na EuroLiga no próximo ano, como anunciou Massimo Zanetti, presidente do Virtus Bologna.

No entanto, há outros acordos estruturais em discussão. No início do ano, a EuroLiga anunciou a renovação do contrato com a IMG até 2036. Desde o início da parceria, em 2016, as receitas quintuplicaram, escreve o “The Athletic”, e o valor deverá situar-se nos €175 milhões tendo por base os €35 milhões com que o “SportBusiness” tabelou o primeiro ano da ligação.

O CEO, Paulius Motiejunas, já confirmou que está a decorrer um processo para a venda de uma parcela minoritária da EuroLiga. O “Financial Times” aponta a BC Partners, empresa de investimentos, como o futuro parceiro. A publicação britânica refere também que o valor do negócio rondará os €300 milhões por um terço da propriedade.

A NBA está numa escala diferente. A “Forbes” diz que esta atinge os €11,7 mil milhões em receitas, dimensão financeira que pode atrair os maiores clubes do basquetebol europeu para a nova competição e levar a que alguns abandonem a metamorfose – com contratos a longo prazo – em curso na EuroLiga.

Nikola Jokic, o sérvio que já foi três vezes MVP da NBA
Nikola Jokic, o sérvio que já foi três vezes MVP da NBA Dustin Bradford

Real Madrid e Barcelona são marcas com o perfil óbvio para se puderem juntar à nova competição. Os rivais espanhóis têm peso histórico na modalidade, algo que nem todos os futuros participantes deverão ter. O Paris Saint-Germain é um sério candidato a juntar-se, assim como o Manchester City.

Adam Silver recordou que “o basquetebol é a modalidade número dois na Europa” e que “aproximadamente 15% dos jogadores na NBA são da Europa”. E não é só: dos últimos seis MVPs, cinco são europeus (Giannis Antetokounmpo recebeu o prémio duas vezes e Nikola Jokić conquistou-o em três ocasiões). Quanto a matéria-prima de tenra idade, as primeiras escolhas dos últimos dois Drafts, Victor Wembanyama e Zaccharie Risacher, vieram de França.

Os dados divulgados pela NBA no início da época mostram que existem 125 jogadores internacionais de 43 países diferentes. Não é surpreendente que, aproveitando tal multiculturalidade, o soft power se tenha já estendido a outras pontas do globo. Em África, já existe uma competição filha da NBA. Chama-se BAL (Liga Africana de Basquetebol) e Hugo Salgado, o treinador português que nela vai participar, explicou à Tribuna Expresso, “é tudo organizado pela NBA desde os patrocinadores aos equipamentos”. Por muito que ainda não se conheçam os moldes do novo projeto, certamente que a ligação com a NBA será reconhecível.