"O número de vidas perdidas [na África do Sul] será superior a 500.000. Haverá mortes desnecessárias devido à perda deste financiamento [norte-americano]. Prevejo um enorme desastre", afirmou hoje a investigadora Linda-Gail Bekker, diretora da Fundação Desmond Tutu, durante uma videoconferência organizada com outras Organizações Não-Governamentais (ONG).

Esta reunião seguiu-se ao anúncio, na quarta-feira, de que a agência de desenvolvimento dos EUA (USAID) estava a cortar 92% do seu financiamento para programas no estrangeiro.

Várias ONG locais que recebiam financiamento do principal programa americano de luta contra a SIDA, o Pepfar, através da USAID, receberam e-mails a anunciar o fim do seu financiamento.

Embora nem todos os 6,5 mil milhões de dólares (cerca de 6,2 mil milhões de euros) distribuídos em 2024 pelo Pepfar, que foi brevemente suspenso após o regresso de Donald Trump à Casa Branca, sejam canalizados através da USAID, o futuro do próprio programa é incerto.

Parte dos subsídios do Pepfar requerem o voto do congresso, e estes fundos só foram prolongados no ano passado por um ano: expiram em 25 de março.

"Estamos muito preocupados. A administração Trump declarou guerra à saúde em África. Estamos a caminhar para o desastre", disse a diretora executiva da ONG Apha, Yvette Raphael, dedicada aos doentes com VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e SIDA na África do Sul.

Por sua vez, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, anunciou hoje que pretende chegar a um acordo com o seu homólogo norte-americano para resolver a tensão entre os dois países.

Numa conferência organizada pelo banco norte-americano Goldman Sachs, em Joanesburgo, Ramaphosa disse querer que "o assunto se acalme" para encontrar uma forma de "responder ao que aconteceu", noticiou a imprensa local.

No início de fevereiro, Trump assinou uma ordem executiva para cessar a ajuda à África do Sul, citando alegadas expropriações de terras e violações maciças dos direitos humanos contra os 'afrikaners' (sul-africanos brancos descendentes de colonos holandeses) no país africano, uma referência à controversa lei de expropriação que o Governo sul-africano promulgou no final de janeiro e que tornará mais fácil a expropriação de terras do interesse público.

Ramaphosa negou rapidamente essas acusações e hoje indicou que o seu objetivo, a longo prazo, é viajar até Washington para melhorar as relações bilaterais entre os dois países.

A expropriação de terras é uma questão altamente sensível na África do Sul, onde ainda existe uma distribuição desigual de terras, um legado do regime segregacionista do 'apartheid' (1948-1994).

"Nós queremos ir e explicar a nossa posição, queremos ir e fazer um acordo significativo com os EUA numa série de questões", disse Ramaphosa.

Por outro lado, o Presidente sul-africano criticou o grupo de pressão de extrema-direita Afrikaner AfriForum e o movimento Solidariedade por "minarem a soberania da África do Sul" ao enviarem uma delegação a Washington para avisar que temiam a expropriação das suas terras e que os 'afrikaners' estavam a ser alvo de apelos à violência contra si.

"Temos de parar de fugir para outros países. Os nossos problemas devem ser discutidos e resolvidos aqui. Isso confirma a nossa soberania e a nossa posição como nação livre e independente. Podemos ter diferenças, mas encontraremos soluções", afirmou.

A tensão entre a África do Sul e os EUA também se refletiu nas ausências do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, nas duas reuniões dos ministros dos Negócios Estrangeiros e das Finanças no G20, realizadas este mês sob a presidência sul-africana.

 

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